domingo, novembro 07, 2004

encolho-me na janela onde desvendo o tempo

diluída na chuva

a chuva caiu

olhei
vi cair a chuva
ocultei a solidão do tempo

os olhos
fecho-os
e
imagino a chuva
assim miudinha caindo de raiva

imagino sorrisos no teu rosto
entre o sabor de beijos molhados

abrigo-me de ti
ou
de mim nem sei

penso que renasci nesses dias vagos
como em tantos outros dias
onde pensei que morri nas noites inventadas de nada
e que o nada era teu rosto
surgindo na passagem do nevoeiro

nada mais importa

que seja chuva ou nevoeiro,
o vento ou a madrugada,

que seja a infindável noite
ou um soluço diluído em poeiras

no tempo
quero que algo te traga


onda

quinta-feira, novembro 04, 2004

resta-me uma recordação de um silêncio

Claridade dada pelo tempo

Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
poesia
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
. . .
Mário-Henrique Leiria


quando acabava sempre a mesma reacção:

<@the_sad_punk> lol
<@the_sad_punk> :)))))))
< 03onda > *~
<@the_sad_punk> *********

no isolamento da minha memória vou guardar-te e do lado de lá vejo-te envolto no prazer de leres

um dia no mesmo espaço onde tantas vez deslizaram palavras, vi-te pela última vez:

Session Start: Sat Oct 30 10:54:43 2004
Session Ident: #poesia
[10:54] [10:54] * Entrou no canal #poesia
[10:54] * Topic is '---> http://canaldepoesia.blogspot.com/ <--- mais uma crónica de outono '
[10:54] * Set by do-mundo on Fri Oct 29 13:35:20

nesse dia foram somando as horas sem tempo, numa intensidade de poemas ou textos e vi-te chegar à mesma janela onde muitos anos partilhamos juntos tantos momentos

[14:41] [14:41] * Entrou : the_sad_punk (K-nabis@127.137.245.28)
[14:41] * ChanServ sets mode: +o the_sad_punk

minutos mais tarde sem um sinal vi-te sair

[14:47] * Saiu : the_sad_punk (K-nabis@127.137.245.28)

e o comecei a escutar o silêncio.

agora abro diariamente a janela e aceno-te, mas tu já não me podes ver, escrevo palavras no espaço, olho e sinto um imenso vazio

onda

sábado, outubro 30, 2004

agitou-se a noite e aqueceu o dia

veio o dia sem idade arrasando sem cor
os movimentos dos dedos

da janela
uma única estrela na profunda escuridão

o frio trai sorvido nas sombras

espírito e alma
misturam-se no sal da vida

a noite traz um sopro árido
cheio de rumores em marés invisíveis

o mar arrastasse terno e doce
embriagado em mistérios
branco e
nobre

realçam sentimentos

sente-se o cheiro
dum desejo

o de amar


onda

domingo, outubro 17, 2004

a emoção ficou trancada

encontrei uma esquina de janela e vagueei

abri janelas às certezas

entraram sem condições

vieram sem imagem,

reflectiam justiça

pouco a pouco
ecoavam vozes
confusas

e tudo irrompia

não se distinguia o brilho do dia
ou a escuridão da noite

tentaram atravessar a vida

metade visível,
mas sem memória

outra metade
densa e insaciada

trouxeram a realidade e o bom senso

juntaram emoções

desejos

carácter
segurança,
palavras difusas

fechou-se a janela

fui ao encontro do esquecimento

deixei partir as certezas

isolei as recordações

voltei costas à realidade visível
ao fundo
a janela abre-se

onda

segunda-feira, outubro 04, 2004

a magia em cada movimento pelo grito da razão

Caboclo Roceiro

Caboclo Roceiro, das plaga do Norte
Que vive sem sorte, sem terra e sem lar,
A tua desdita é tristonho que canto,
Se escuto o meu pranto me ponho a chorar

Ninguém te oferece um feliz lenitivo
És rude e cativo, não tens liberdade.
A roça é teu mundo e também tua escola.
Teu braço é a mola que move a cidade

De noite tu vives na tua palhoça
De dia na roça de enxada na mão
Julgando que Deus é um pai vingativo,
Não vês o motivo da tua opressão

Tu pensas, amigo, que a vida que levas
De dores e trevas debaixo da cruz
E as crides constantes, quais sinas e espadas
São penas mandadas por nosso Jesus

Tu és nesta vida o fiel penitente
Um pobre inocente no banco do réu.
Caboclo não guarda contigo esta crença
A tua sentença não parte do céu.

O mestre divino que é sábio profundo
Não faz neste mundo teu fardo infeliz
As tuas desgraças com tua desordem
Não nascem das ordens do eterno juiz

A lua se apaga sem ter empecilho,
O sol do seu brilho jamais te negou
Porém os ingratos, com ódio e com guerra,
Tomaram-te a terra que Deus te entregou

De noite tu vives na tua palhoça
De dia na roça , de enxada na mão
Caboclo roceiro, sem lar , sem abrigo,
Tu és meu amigo, tu és meu irmão.

Patativa do Assaré


domingo, outubro 03, 2004

terça-feira, setembro 21, 2004

no silêncio liberto o grito sufocado no desespero invisível da natureza


Imagem de Edvard Munch

o grito


Nasceu em mim o grito
esmagado
calado
num desabafar moribundo de amor
despertou profundo e partiu
sumiu
na pressa levou com ele
um sorriso constante
pensamentos trancados no peito
a luz
de uns olhos
os meus
que exprimem quando não consigo falar
fiz seguir o destino sem rumo
parei o tempo
num sopro
com rotas traçadas
invisiveis
num céu branco
como espuma,
sem um lamento
fatigada, presa no tempo das nuvens
vencida por sentimentos
e num gemido amargo
quis sair
da preguiça de me sentir vencida
provar a água
que me lava e acaricia
saber sentir
sem me apagar
dentro de ti


onda

domingo, setembro 19, 2004

escuro lamento da noite onde se escuta o uivar do vento



na noite tétrica
vi sombras

vazias

caladas

fechadas

chuva ácida, num miudinho chuvisco

solidão oprimida
de tanto resgatada,

momentos eternos de adiamentos
em sonhos livres e desnudados

linhas de um rosto
entrelaçadas
na brisa de um desejo,

um nunca
presente,

o bater da cabeça
de raiva
nas palavras injustas,

a indiferença
que corre em veias grossas,

vi
desprezo
indiferença injustiçada

dizer não
à fúria de estar

por querer ser o prazer saciado


onda
com palavras abres a porta à noite e transformas-te numa sombra lenta

entropecida nos segredos da voz do mar




bebo o silêncio
saboreio o vento,

sacio a fome com a saudade
respiro o mel da fruta

a ausência é uma forma de vida,
baloiço em palavras

em gestos e vozes
com o mar me perfumo

de flores construo um mundo
onde combato o terror e o medo.

atravesso a noite cinzenta,
como um barco sem rumo

exausta sucumbo lentamente
em imagens desfocadas

entro dentro dos sonhos
onde o amor se revela
em movimentos belos e luminosos

perco-me no sono, perto de um coração
que não consegue tocar-me.

extingo-me nas memórias do tempo
ao longo da costa verde e espessa,
tocada por águas translúcidas

é tarde,
diluí-me no sulco da maré


onda

quinta-feira, setembro 09, 2004

um lugar que pinto na imaginação
imagem

atravessei caminhos na vida
numa obscuridade total

o frio foi meu companheiro
além das sombras e solidão

o rosto não o reconhecia
a imagem foi apagada pelo tempo

algumas traziam consigo a dor

tento lembrar-me dos risos
das árvores verdejantes
do cheiro das flores do campo
dos risos de felicidade,

desperta em mim a alegria,
a saudade é dura

vejo rostos sem lhes saber o nome
rostos desconhecidos

sigo o caminho como se fosse uma ordem
quero voltar atrás
como se alguém me chamasse

olho de quando em vez
apresso o passo na noite

desvio o olhar
nada do que procuro me transforma
ou me traz de volta o que procuro

encosto-me, fecho os olhos
e cansada reconheço uma voz

respondo-te e regresso.


onda

quarta-feira, setembro 08, 2004

lua transparente onde me prendo sem condições



isolo a noite
da lua transparente

desafio a penumbra
caminho suspensa na noite
largando o esquecimento
na chuva, intensa e fria

passo a passo
desvendo os gestos
entorpecidos pelo desgaste,
entro nos sonhos invisíveis da voz do mar

num vento ofegante
sem regresso
chega até mim o ruído das ondas
numa obsessão sonâmbula

gemidos desprendidos,
nos fluxos de uma hipótese de amor
onde me anuncio
em palavras sem cor


onda

  abril desfolhado a tela já não é sinfonia nem as aves gritam como qualquer papoila num campo distante não há forças para sonhar ...